Ao
recordarmos hoje nossos familiares falecidos, manifestando nossa fé
na ressurreição dos mortos e na comunhão dos santos,
reflitamos as comovedoras palavras de Santo Agostinho ao narrar a morte
de Mônica, sua mãe:
Texto
para reflexão:
Das
Confissões
de Nosso Pai Santo Agostinho
[...]
Cerca de cinco dias mais tarde, ou pouco mais, [após o êxtase
de Óstia], caiu [Mônica] de cama com febre. Durante a doença,
teve um dia de desmaio, ficando por pouco tempo sem sentidos e sem reconhecer
os presentes. Acudimos de imediato e logo voltou a si.
Vendo-nos
a seu lado, a mim e a meu irmão, perguntou-nos, como quem proucura
algo: "Onde estava eu?". - Depois, vendo-nos atônitos
de tristeza, nos disse: "Sepultareis aqui vossa mãe".
- Eu me calava, retendo as lágrimas, mas meu irmão disse
umas palavras em que desejava vê-la morrer na pátria e não
em terras distantes.
Ao
ouvi-lo, minha mãe repreendeu-o com o olhar, e aflita por ter pensado
em tais coisas; depois, olhando para mim, disse: "Vê o que
ele diz". - E depois para ambos: "Sepultem este corpo em qualquer
lugar, e não se preocupem mais com ele. Peço apenas que
se lembrem de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejam".
- E tendo-nos exposto seus pensamentos com as palavras que pôde,
calou-se; sua modéstia agravou-se e suas dores aumentaram.
[...]
Soube também depois que em Óstia, estando eu ausente, falou
certo dia com alguns amigos meus, com maternal confiança, sobre
o desprezo desta vida e o benefício da morte. Eles, maravilhados
da coragem dessa mulher - dádiva tua - perguntaram-lhe se não
temia deixar o corpo tão longe da pátria. "Nada está
longe para Deus - disse ela - nem preciso temer que ele ignore, no fim
dos tempos, o lugar onde me ressuscitará".
Por
fim, nove dias após cair enferma, aos cinqüenta e seis anos
de sua idade e aos trinta e três da minha, aquela alma santa e piedosa
libertou-se do corpo.
Fechei-lhe
os olhos, e uma tristeza imensa invadiu-me o coração, e
já me ia desfazer em lágrimas; ao mesmo tempo, meus olhos,
obedecendo ao enérgico poder de minha vontade, fechavam sua fonte
até secá-la. Como foi angustiante essa luta! E foi quando
ela deu o último suspiro, que meu filho Adeodato rebentou em soluços;
mas, instados por todos nós, se calou.
Deste
modo sua voz juvenil, voz do coração, calou em mim essa
espécie de emoção pueril que me provocava o pranto.
De fato, não julgávamos correto celebrar aquele funeral
com lástimas e choros, pois tais demonstrações deploram
geralmente o triste destino dos que morrem, ou sua total extinção.
A
morte de minha mãe não era uma desgraça, e ela não
morria para sempre, e disto estávamos certos pelo testemunho de
seus costumes, por sua fé sincera e outras razões inequívocas.
[...]
Quando o corpo foi levado à sepultura, fui e voltei sem derramar
uma lágrima. Nem mesmo nas orações que te fizemos,
quando oferecemos o sacrifício de nossa redenção
por intenção da morta ..., nem mesmo nessas orações
chorei. Mas durante todo o dia andei oprimido por grande tristeza interior...
[...]
Depois, pouco a pouco, voltava aos sentimentos de antes sobre tua serva.
Recordava de sua piedade para contigo, de sua solicitude e paciência
comigo, da qual subitamente me via privado. E senti consolação
em chorar diante de ti, por causa dela e por ela, e por minha causa e
por mim. E deixei que as lágrimas reprimidas corressem à
vontado, estendendo-as como um leito reparador sob meu coração.
Teus ouvidos eram os que ali me escutavam...
[...]
Que ela repouse em paz com seu marido, antes e depois do qual não
teve outro; a quem serviu, com uma paciência cujo fruto te oferecia,
para o ganhar também para ti. Mas inspira, meu Senhor e meu Deus,
inspira a teus servos, meus irmãos, a teus filhos, meu senhores,
a quem sirvo de coração, com a palavra e com a pena, para
que, ao lerem estas páginas, diante do teu altar lembrem de Mônica,
tua serva, e de Patrício, outrora seu esposo, pelos quais me introduzistes
misteriosamente nesta vida.
Que
lembrem com piedoso afeto daqueles que foram meus pais nesta vida transitória,
e meus irmãos em ti, ó Pai, na Igreja Católica, nossa
mãe, e meus concidadãos na eterna Jerusalém, pela
qual suspira de teu povo em sua peregrinação desde a saída
até o regresso.
Assim
graças ás minhas confissões, o último desejo
de Mônica será mais amplamente satisfeito com muitas orações
do que só pelas minhas.
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. . . .
Oração:
Ó Deus, que perdoais os homens e desejais salvá-los, concedei
aos nossos familiares e parentes que partiram deste mundo, participar
da vida eterna por intercessão da Virgem Maria e de todos os santos.
Por
Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito
Santo. Amém. |
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O "êxtase
de Óstia":
ainda em vida,
santa Mônica
e seu filho
santo
Agostinho
vivem a
realidade da
vida eterna.
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